sábado, 27 de fevereiro de 2010

Cinzas

Tenho postado pouco ultimamente, e os temas têm me interessado menos. Talvez seja efeito da rotina, no entanto tenho atentado à um fenômeno cada vez mais crescente e aparente (talvez o que tenha se tornado banal algumas vezes vem a tona na forma de sintomas sociais). Cada vez é menos absurdo o olhar desviante que damos aos homens e mulheres que se acham jogados pelas ruas, trajando vestes cinzas (que os confunde com o cinza das ruas), olhares que não tem brilho, ou ofuscam tanto que nossas cabeças são obrigadas a se inclinar para o lado e evitar o impactante vislumbre de um homem sujo, que fala coisas desconexas e as vezes agressivas, que machuca as narinas de quem passa e estende a mão. A imagem não é das mais agradáveis pois trata-se de uma das falhas que a sociedade não foi capaz de consertar, então massacra até virar cinza, até virar nada.
Com relação ao olhar, convém não fazê-lo. A criatura pode levantar-se, amedrontar meus sonhos, minha concepção de mundo, meu entendimento do real. O real deve seguir uma linha reta e sem obstruções. É doloroso topar com uma pedra no caminho. Num mundo cor de rosa que cheira a morango artificial não há lugar para a realidade quebrante do homem que não participa da movimentação da economia, não contribui com o consumo, em torno dele não giram grandes valores, grandes marcas, seu estomago não digere os frutos da beleza do capital (a menos que encontrados no lixo). O maltrapilho é assustador, um ser tão superior ao proletariado, pois não participa em nenhum momento dês da extração passando pelo processo de produção e por ultimo o consumo, essa classe de miseráveis participa da coleta do lixo, a ultima etapa do belo processo que faz o capital girar.
Dos que vivem do lixo há também os que vivem no lixo e os que vivem com o lixo: portanto não é admirável comparar o homem de rua com o lixo, comparação nada desqualificada de razão. Ora, o que a sociedade nega a existência é o lixo, este por sua vez desaparece no momento em que é jogado fora, deixa de existir, desaparece quando redireciono o olhar (em um processo esquizofrênico mesmo), a realidade é tão deturpada apenas por aquilo que lhe é apresentada, é tão dura e cruel, as luzes não iluminam o lixo, iluminam os produtos, mal se pode ver a produção a não ser que trabalhe nela (trabalho duro e pouco remunerado)
Se se esquecem que por trás daquelas roupas sujas há um homem com desejos, anseios, frustrações, amores então não fica dificil vê-lo como um animal e não SE RECONHECER no ser que topa na rua. Estão expostos à ação do tempo, da violência e do descaso. Por isso somos esquizofrênicos que não querem ver a verdadeira realidade (o tipo mais grave da patologia) ,basta a realidade criada.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

O Ser (parte2)



Uma árvore em flor fica despida e despojada de suas folhas no outono. A beleza transforma-se em feiúra, a juventude transforma-se em velhice e os erros, em virtude. As coisas não permanecem sempre as mesmas e nada existe realmente, as aparências e o vazio existem de forma simultânea (Dalai Lama). Gosto das explicações do ser, prefiro as dos poetas, os filósofos poetas e os psicólogos metidos a tudo isso. O ser é o estar-sendo, não somos porque no momento seguinte somos outra coisa, portanto somos nada, fazemos parte do nada e devemos reconhecer que ‘nada tem sentido‘. Nada pode ser porque um dia deixará de ser, portanto a árvore está sendo, assim como as pessoas e o universo. O tempo não se reconhece a não ser pelo conceito humano de tempo, que muda, varia, distorce a realidade, deixa de ser. Se não há tempo e as coisas não são de fato, a realidade é uma brincadeira, dá esse espaço de transcendência entre o nada e o vir-a-ser. O que estou sendo agora e o que posso me tornar, eis a transcendência do vir-a-ser cotidiano.

Se eu vivo em um plano em que nada é, e nada faz sentido, então minha consciência circula em um espaço finito, em que há um fim a se alcançar que seriao ser absoluto. Em Deus a humanidade pode então dar um ponto de início e de capacidade de raciocínio para a criação do universo e da consciência humana. Há portanto um universo finito e uma consciência finita dentro dessa maneira de pensar, pois a razão humana já fora explorada ao máximo no período moderno, o cotidiano do período pós moderno é justamente o ponto em que o homem já não encontra soluções para os seus problemas, portanto busca a Deus novamente, mas não mais em forma de imposição inquisitiva, mas no marketing da igreja pós-moderna. Em geral essas formas de se pensar nos levam a conclusões que dizem respeito ao capital e ao consumismo. Acredito que esses são pontos interessantes de se discutir, mas além dessa aparência que nos salta aos olhos, tão escancaradamente que mal podemos enxergar, tornando-se banal à sociedade e objeto de estudo da filosofia e psicologia moderna, há a esperiência do sagrado. Os estudos que foram feitos anteriormente tratando desse assunto exploraram bastante as relações do homem com agentes atenuadores da angústia presentes no mercado. Em termos existencialistas pode-se observar o vazio do humano perante a sua existência e o seu vir-a-ser, consumindo mais ele atribui valor a sua existência, seu tempo é preenchido com futilidades que são capazes de dar conta do vazio e do tédio existencial. Alguns adornos à vida e alguma(as) ideologia(s) são capazes de atenuar a angústia do sujeito pós moderno. As academias, as farmácias, as -igrejas e porque não, os consultórios de psicoterapia, são formas de atenuar essa angústia do vir-a-ser. Portanto me parece ser de nosso interesse acrescentar um estudo baseado em relatos de pessoas que vivem a sensação de estar em transe enquanto participa de um ritual religioso, ou um culto (como tem se costumado chamar).

Até esse ponto já tenho tido algumas idéias, aos poucos vou postando mais...

sábado, 23 de janeiro de 2010

Episódios depressivos

Crie uma imagem em sua mente: imagine que está no pólo sul, no entanto há um sol brilhando no céu. Você tiraria sua camisa?

Depressão é uma palavra freqüentemente usada para descrever nossos sentimentos. Todos se sentem "para baixo" de vez em quando, ou de alto astral às vezes e tais sentimentos são normais. A depressão, enquanto evento psiquiátrico é algo bastante diferente: é uma doença como outra qualquer que exige tratamento. Muitas pessoas pensam estar ajudando um amigo deprimido ao incentivarem ou mesmo cobrarem tentativas de reagir, distrair-se, de se divertir para superar os sentimentos negativos. Os amigos que agem dessa forma fazem mais mal do que bem, são incompreensivos e talvez até egoístas. O amigo que realmente quer ajudar procura ouvir quem se sente deprimido e no máximo aconselhar ou procurar um profissional quando percebe que o amigo deprimido não está só triste.
Uma boa comparação que podemos fazer para esclarecer as diferenças conceituais entre a depressão psiquiátrica e a depressão normal seria comparar com a diferença que há entre clima e tempo. O clima de uma região ordena como ela prossegue ao longo do ano por anos a fio. O tempo é a pequena variação que ocorre para o clima da região em questão. O clima tropical exclui incidência de neve. O clima polar exclui dias propícios a banho de sol. Nos climas tropical e polar haverá dias mais quentes, mais frios, mais calmos ou com tempestades, mas tudo dentro de uma determinada faixa de variação. O clima é o estado de humor e o tempo as variações que existem dentro dessa faixa. O paciente deprimido terá dias melhores ou piores assim como o não deprimido. Ambos terão suas tormentas e dias ensolarados, mas as tormentas de um, não se comparam às tormentas do outro, nem os dias de sol de um, se comparam com os dias de sol do outro. Existem semelhanças, mas a manifestação final é muito diferente. Uma pessoa no clima tropical ao ver uma foto de um dia de sol no pólo sul tem a impressão de que estava quente e que até se poderia tirar a roupa para se bronzear. Este tipo de engano é o mesmo que uma pessoa comete ao comparar as suas fases de baixo astral com a depressão psiquiátrica de um amigo. Ninguém sabe o que um deprimido sente, só ele mesmo e talvez quem tenha passado por isso. Nem o psiquiatra sabe: ele reconhece os sintomas e sabe tratar, mas isso não faz com que ele conheça os sentimentos e o sofrimento do seu paciente.
::: mais sobre depressão em http://www.psicosite.com.br/tra/hum/depressao.htm :::

sábado, 2 de janeiro de 2010

Era do esvaziado

Cabe ao humano de hoje representar uma vida cretina e mediocre por não ter coragem de lutar pelo que é justo e seu por direito. Ao falar de direito penso no ser da razão, da consciência e da soberba, da imagem e semelhança de Deus, eu lhes apresento o sujeito pós-moderno. Mas tem tanto aí da evolução humana (no sentido de sociedades e de desenvolvimento “individual”), das características de ser um ser de consciência. Ora, nada é senão por meio da consciência humana. Se não um pedaço de matéria no espaço/universo, este computador só é por meio da minha existência, do meu ser. O meu ser faz algo ser, inclusive a minha existência, esta por sua vez só é porque eu e outro ser de consciência somos e podemos, através da linguagem, dizer e pensar sobre mim (simbolizar, significar – tornar isso um símbolo), portanto, só sou porque alguém me reconhece como tal.
Toda essa discussão é para que possamos chegar ao ponto de partida, o resultado de alguns milhares de anos de espécie humana ao que somos agora. Criaturas que possuem o poder de se autodestruir, de desejar e ser um ser de desejo (do sem fim, do universo que criamos). Foge a compreensão o fato de que para um humano dos tempos de hoje, consumir e descartar são as únicas fontes do desejo, esperadas que sejam cumpridas pelos outros seres da razão. Perdemo-nos em nossa razão sem sentido, nossas compulsões aceitas socialmente. Queremos algo que, na grande maioria dos casos, mal se sabe o que é. É viver feliz, mas esquecemos de pensar esse conceito, ser saudável, mas o que é saúde? Será que bem estar físico e mental basta pra compreender o conceito de saúde? Um homem que satisfaz seus desejos, seus prazeres, mas um câncer o assola e o aterroriza, com dia e hora marcados para a morte fulminante, está feliz? Será que ao fumar ele não se sente bem, ou será que a culpa o corrói, a vergonha e o medo da morte, que tanto é esperada e almejada pelas pulsões de morte do sujeito, o matam, e isso o torna feliz? O desejo da morte e o desejo de viver, o desejo de manter-se em contato com aquela ou outra pessoa, mas ao mesmo tempo aniquilar aquelas pessoas, matá-las simbolicamente ou concretamente (romper, deixar de pensar sobre, e portanto, tornar inexistente), são as formas de se relacionar com o mundo e com o outro que a nossa evolução foi capaz de desenvolver. Em “Amor Líquido” a idéia central do autor é mostrar que os laços se afrouxaram, as pessoas querem se relacionar rapidamente com as coisas assim como com as pessoas, pois pessoas são coisas, são mercadoria (se comportam como tal). Bauman sabia que esse comportamento de ser uma mercadoria para o outro, algo descartável, pois é isso que precisamos, queremos experimentar pois tememos a morte iminente que bate a porta, estava presente na maneira como as pessoas se comportavam na sociedade de consumo. Na era pós-moderna, quanto mais se tem melhor. Em termos psicanalíticos estamos expulsando mais, presos na fase anal, onde o prazer é o de sujar, destruir e matar. A competição entre os homens é a expressão do ódio pelo outro, pelo prazer em ser melhor (ter mais capital).
A pressa de viver é o jeito mais racional e objetivo de deixar de encarar a própria existência. Querer estar em muitos lugares e com muitas pessoas diferentes ao mesmo tempo (o avião, essa máquina que desmoralizou a distancia) são expressões da não experiência da própria existência. O tédio não é experimentado, ele é punitivo, não é agradável refletir, devemos produzir, ganhar capital e gasta-lo o mais rápido que pudermos, para poder consumir mais e evacuar mais do nosso lixo no planeta. Nossa missão parece ser mesmo a de acabar com o planeta, mas isso é improvável já que morreremos todos antes disso acontecer. Morreremos antes de saber se queremos o preto ou o branco, alguma coisa ou outra coisa, se o meu desejo é matar ou morrer, porque não há dualidade, não há razão, a não ser para seres com consciência. Vivemos todos em um delírio coletivo onde o real é compartilhado por quase todos.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

diário de bordo

Esse final de ano foi realmente muito pouco produtivo. Andei envolvido apenas com um texto chamado Adoecimento Psíquico no Trabalho: um estudo sobre os profissionais do SAMU. Levantamos algumas questões sobre a Psicodinâmica do Trabalho, energia psíquica, conflitos entre a subjetividade e os interesses produtivos das organizações, enfim, algumas dessas questões que são interessantes tanto para a Psicologia como para sociólogos, estudiosos do trabalho como administradores ou mesmo o povo de centro-esquerda e esquerda marxista.
As pessoas que trabalham no serviço de atendimento de resgate de São Paulo lidam diariamente com a pressão de terem as vidas das pessoas dependendo dos seus esforços físicos e mentais, assim como ter que atender um número muito grande de chamados, geralmente motoqueiros e motoristas embriagados que se arriscam no transito da cidade. Em contrapartida está a recompensa moral e cívica de ajudar um ser de mesma espécie, a gratificação da sociedade e o amor pela profissão. Lidam todos os dias com senas que se tornam cada vez mais difíceis tirar da memória.
O que pretendemos fazer é entrevistá-los para reconhecer a importância desse material mnêmico em uma possível tentativa de intervenção que possa vir a ser feita no sentido de melhorar a qualidade de tralho e de vida dessa classe de trabalhadores. Usaremos a técnica de senas, pediremos para que relatem (como se fosse um filme) momentos em que sentiram pressão vinda do ambiente de trabalho, sendo considerados trabalhadores do SAMU todos os integrantes de uma equipe que compõe enfermeiros, médicos, motoristas, assistentes, etc.
Fora esse trabalho também vou tentar dar continuidade em um texto que já tá fazendo seu segundo aniversário e não conseguimos publicar, mas para as férias todos prometeram se dedicar, nem que seja um pouquinho, pra finalmente dar um fim pra tanto tempo de reuniões semanais e leitura excessiva diária (LED).

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

O poeta da dor

“Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!”

...

“Sábias agudezas... refinamentos...
- não!
Nada disso encontrarás aqui.
Um poema não é para te distraíres
como com essas imagens mutantes de caleidoscópios.
Um poema não é quando te deténs para apreciar um detalhe
Um poema não é também quando paras no fim,
porque um verdadeiro poema continua sempre...
Um poema que não te ajude a viver e não saiba preparar-te para a morte
não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras.”

-M. Quintana-

Liberdade


Deve-se garantir o direito do cidadão na sua plena existência, há de se fazer o homem ser reconhecido como ser pensante, não mais como ser biológico meramente, gado, visto apenas como força de tração. O ser que tem direitos é um ser constante, não se cria uma lista de regras para algo que é constante, muito menos se essas regras deixam clara a intenção de favorecer a minoria de coronéis desse país. Deve-se garantir que os direitos sejam algo que se modifique conforme o sujeito necessitar, pois o direito é algo que não se basta se for imutável. Assim como o ser e a sociedade (e o ser com a sociedade) deve se desenvolver para atingir uma plenitude de garantia de justiça e liberdade.